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O Globo – 02.09.2016

Arthur Dapieve

Não sou nem novo nem velho, acho. Talvez velho demais para o rock’n’roll e novo demais para morrer, como na antiga canção do Jethro Tull. Tenho 52 anos. De acordo com o último checape, gozo de boa saúde, hipertensão controlada por remédios. Não tenho medo da morte. Não da minha. A morte dos outros é que me apavora.

Os outros têm morrido cada vez mais. Quem acompanha os obituários soube: muitos jornalistas se foram desde o ano passado. O jornalismo não está morrendo, mas bons profissionais estão. Colegas admirados, amigos próximos: José Carlos Avellar, Beatriz Thielmann, Marcos Ribas de Faria, Rogério Durst, Danusia Barbara, Sandra Moreyra, Xico Vargas, Luiz Antonio Novaes, Bety Orsini, Geneton Moraes Neto.

Se repito os seus nomes é porque a única crença que tenho em vida após a morte está na nossa capacidade de nos lembrarmos dos mortos. Não de seus trabalhos, imortalidade simbólica, e sim das pessoas, de como elas eram, falavam ou se mexiam. Penso que a memória pode lhes dar uma sobrevida de duas, quiçá três gerações. Até o inevitável momento em que quem se lembrava delas assume o papel de lembrança.

Não sou o único a crer nisso. Barthes, mais uma vez. Em 1977, durante a doença fatal de sua mãe, o francês escreveu: “A morte, a verdadeira morte, é quando morre a testemunha mesma. Chateaubriand diz de sua avó e de sua tia-avó: ‘Talvez seja eu o único homem do mundo a saber que essas pessoas existiram’: sim, mas como ele o escreveu, nós também o sabemos, desde que pelo menos leiamos ainda Chateaubriand”.

Contudo, as três mortes mais recentes de jornalistas me colocaram, na sua rápida e atordoante sucessão, para refletir que até essa crença otimista (pelos meus padrões) de sobrevivência na memória tem um lado sombrio. Porque, se as pessoas seguem vivas enquanto nos lembramos delas, na própria ocasião de suas mortes se vai um pedaço de quem com elas conviveu. Se elas vivem na morte, nós morremos aos poucos em vida.

Às vezes, sinto uma vontade danada de tirar uma dúvida da história familiar com minha mãe ou com minha tia. Por exemplo: o que fazia mesmo o pai da minha avó, tinha um teatro? Qual era o nome da sapataria do Centro em que trabalhava o meu avô, que não conheci? Elas não estão mais aqui para me responder. Assumiram a condição de lembranças. A memória já tem até dificuldades de diferenciar uma voz da outra.

Posso aceitar isso, é o processo natural da vida, só que a coisa piora. A maior parte das lembranças da minha infância deixou de existir com suas mortes. Minhas próprias lembranças de infância vão ficando borradas. Já comecei a desaparecer. Não quero tornar a sua sexta-feira ainda pior, mas você também já começou a desaparecer.

Nas últimas semanas, pelejei para me lembrar como surgiu a piada de encontrar o Mineiro embaixo de uma placa em Atenas (onde, descobrimos, há um bairro bastante turístico chamado Plaka, aos pés da Acrópole). Resta a foto, não a memória. Pelejei para lembrar sobre o que conversei com a Bety quando me hospedei na casa “de campo” dela, em Várzea das Moças. Desconfio sobre o que tenha sido, não me recordo. Pelejei para lembrar a qual palestra assistíamos na Travessa do Leblon quando o Geneton me falou que estava concluindo um documentário sobre o Joel Silveira. Em vão.

Talvez eles também não se lembrassem mais, e nada disso tem importância por si só, mas são os pequenos momentos compartilhados que nos reasseguram que estamos vivos. E mesmo se eu me lembrasse do como, do quê e do quando, esses detalhes do lead banal de nossas vidas, estariam faltando o complemento e o contraditório. Pedaços do quebracabeça sumiram daqui. “É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Porque se você parar pra pensar/ Na verdade não há”, cantou o Renato Russo.

Dias atrás, surgiu-me uma imagem que seria engraçada se não fosse trágica para definir como nos vejo desde que o Luiz Antonio Novaes — o supracitado Mineiro, cujo jeito foi bem lembrado pelo Arnaldo Bloch num sábado desses — partiu, puxando a fila. Nós somos a assistente de um atirador de facas que está se embriagando. No começo, as lâminas passam a uma distância confortável, mas já formam nosso contorno na parede. Depois, elas começam a tirar um fino, mas definem melhor quem nós somos. Agora, com a carraspana bem avançada, as facas começam a cortar fora lascas de carne. _____ O fragmento citado de Roland Barthes faz parte do texto “Deliberação”, o último do livro “O rumor da língua”, reeditado pela Martins Fontes em 2004, na tradução de Mario Laranjeira. Barthes nunca se recuperou da depressão causada pela morte da mãe, Henriette, com quem vivia e a quem adorava. Os semiólogos não estão livres da análise alheia. Há quem interprete o seu atropelamento por uma caminhonete, enquanto ia para Collège de France, três anos depois do falecimento da mãe, ou como morte voluntária ou como suicídio inconsciente. Forçação de barra, é provável. Jamais saberemos.