Saúde perdida em fumaça Comentários desativados em Saúde perdida em fumaça

O Globo – 30.08.2016

Paula Ferreira

A mortalidade por câncer de pulmão vem caindo entre os homens mas subindo entre as mulheres. A informação é de um estudo inédito divulgado ontem, no Dia Nacional de Combate ao Fumo, pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), que analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. De acordo com o estudo, a taxa de mortalidade padronizada (que elimina os efeitos do envelhecimento populacional) em decorrência da doença passou de 18,5 por 100 mil habitantes em 2005 para 16,3 por 100 mil habitantes em 2014, entre os homens. No caso das mulheres, a taxa aumentou de 7,7 por 100 mil habitantes para 8,8 por 100 mil habitantes no mesmo período.

— A epidemia do tabagismo nas mulheres aconteceu bem depois da dos homens. Para eles, na década de 1940 já era uma coisa disseminada no mundo inteiro, com propagandas feitas principalmente sobre a figura masculina. Foi bem depois disso que as mulheres começaram a fumar. Esse conjunto de mulheres adoeceu e só agora estamos vendo o aumento de casos de câncer de pulmão entre elas — explica a gerente da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, Liz Almeida.

Segundo a médica, essa tendência já foi observada em outros países. A curva da mortalidade masculina tende a cair primeiro, porque os reflexos negativos são percebidos mais tarde na população feminina.

— O risco maior aparece nas mulheres nascidas a partir da década de 1960, que se tornaram fumantes nas décadas de 1970 e 1980. O comportamento de fumar se deu em momentos diferentes entre homens e mulheres. Ainda estamos trabalhando em projeções para saber quando vai cair a taxa entre as mulheres — explica Mirian Carvalho de Souza, epidemiologista da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca e que também fez parte do estudo.

SÓ 8% VIVOS APÓS CINCO ANOS DO DIAGNÓSTICO

O hábito de fumar causa cerca de 200 mil mortes por ano no Brasil em decorrência de doenças vasculares e/ou respiratórias, entre outros males. No caso do câncer de pulmão, em 2014 foram registrados 25.422 óbitos no país. A estimativa é que 90% dos homens atingidos pela doença fumaram em algum momento da vida. Entre as mulheres, o percentual é de cerca de 60%. Dados do Inca revelam que são esperados para este ano e o próximo cerca de 56.400 novos casos de câncer de pulmão no país que, em 2014, foi o tipo mais letal da doença entre os homens e o segundo que mais matou mulheres (atrás apenas do câncer de mama). Entre os pacientes do Instituto, apenas 33% estavam vivos um ano após o diagnóstico. A taxa de sobrevida é ainda mais alarmante quanto maior o tempo: somente 8% dos pacientes estavam vivos cinco anos após o diagnóstico.

Apesar do cenário adverso, números dão conta de que os brasileiros estão deixando o cigarro de lado. Na população em geral, a taxa de fumantes caiu consideravelmente. Em 2006, 15,7% dos brasileiros fumavam. Já em 2014, a parcela era de 10,4%. Entre os homens, a porcentagem de fumantes nesse período passou de 20,3% para 12,8%, enquanto entre as mulheres caiu de 12,8% para 8,3%.

Além da divulgação dos dados, o Inca aproveitou para lançar a campanha “#MostreAtitude: sem o cigarro, sua vida ganha mais saúde”, para incentivar as pessoas a abandonarem o hábito de fumar. Para isso, a campanha aproveitou o contexto de Olimpíada e Paralimpíada do Rio para atrair os jovens para uma vida saudável, que substitui o uso de drogas, como o tabaco, pela prática de esportes. A intenção é reduzir o consumo entre os jovens, principal alvo das indústrias tabagistas. Dados do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (Erica), divulgados neste ano, mostram que cerca de 18,5% dos adolescentes brasileiros (entre 12 e 17 anos) já experimentaram cigarro.

— O maior foco é o jovem porque a indústria vem redirecionando toda a campanha para esse público. Os maços estão cada vez mais atrativos, sendo colocados na altura das crianças, junto com as balas, nos estabelecimentos comerciais. Para a indústria, quando mais cedo ela pegar a pessoa para começar a fumar, ela garante que vai ter o cliente por mais tempo— explica Liz Almeida — Fazer exercício físico é muito bom porque, quando se convence uma criança a praticar esporte, você traz a ideia de que isso não combina com uso de tabaco.

Na campanha #MostreAtitude, a ideia é promover a prática de esporte como uma atividade de socialização para os jovens que, muitas vezes, começam a fumar incentivados por grupos de amigos. Além disso, a campanha do Ministério da Saúde chama atenção para os benefícios psicológicos dos exercícios físicos. Segundo o órgão, a prática pode aumentar a capacidade de crianças e jovens de controlar sintomas de ansiedade e depressão.

Paratleta, Vinícius Pontes teve exatamente essa constatação quando decidiu abandonar o vício que o acompanhou por cerca de sete anos. Aos 26 anos ele decidiu que levaria uma vida mais saudável, parou de fumar e começou a praticar rúgbi, surfe e tênis adaptado.

— Tracei algumas metas de vida saudável e uma delas era deixar de fumar. Eu decidi porque nas mais simples atividades diárias eu ficava cansado. Além disso, resolvi praticar esportes e vi que fazendo atividade física eu estava em outro cenário que não tinha nada a ver com o cigarro. Uma situação afastava a outra — conta Pontes. — Comecei a fumar aos 19 anos, todos meus amigos fumavam e isso me influenciou. Mas hoje vejo que os benefícios de parar de fumar são muito maiores.