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Folha de São Paulo – 28.08.2016

Marcos Lisboa

Londres foi bombardeada pela Alemanha por 57 noites seguidas a partir de 7 de setembro de 1940. A blitz durou oito meses. Cerca de 30 mil pessoas morreram e outro tanto ficou severamente ferido. Parte da elite inglesa deixou a capital para se refugiar em suas casas de campo.

O rei e a rainha, no entanto, optaram por permanecer no Palácio de Buckingham, bombardeado nove vezes, e visitar as áreas atingidas. O rei esteve com as tropas na frente de batalha e a família real recebeu cartões de racionamento como os demais cidadãos.

O Brasil passa por uma grave crise fiscal. A dívida pública passou de 52%, em 2013, para 66%, em 2015, e pode chegar a mais de 90%, em 2020, na ausência de reformas estruturais. Nada que se compare à dramaticidade de seguidos bombardeios, mas a renda por habitante caiu cerca de 9%, e diversas políticas públicas terão que ser revistas se quisermos evitar uma trajetória insustentável da dívida. A alternativa será, nos próximos anos, a retomada da inflação crônica e seus prejuízos sociais.

A proposta de limitar o crescimento do gasto público à inflação do ano anterior (PEC dos gastos ) tem o mérito de deixar clara a restrição fiscal para estabilizar a dívida. Preservar o gasto com educação, por exemplo, requer menor crescimento de outras despesas, como Previdência ou gastos com servidores.

Certamente, há o que melhorar na proposta. O gasto público deveria ser corrigido pela meta de inflação, em vez do índice do ano anterior, para evitar seu aumento real em anos de queda da inflação, como, esperamos, ocorrerá em 2017.

O reajuste da remuneração dos funcionários públicos vai na contramão dos sacrifícios impostos à maioria dos trabalhadores, com queda dos salários reais e elevado desemprego. Os servidores do judiciário têm estabilidade e estão na elite salarial do país.

Decepciona que, em meio à grave crise fiscal, parte dessa elite defenda interesses corporativos em detrimento da maioria. Esse reajuste terá desdobramentos sobre outras categorias de servidores, inclusive nos governos locais, aprofundando a crise. Decepciona ainda mais a resistência dessa elite à transparência dos gastos com pessoal.

Depois do primeiro bombardeio do palácio, a rainha teria dito: “Agora posso olhar de frente para o East End”, região de Londres duramente atacada anteriormente. À sugestão de que suas filhas fossem para o exterior por precaução, respondeu: “As crianças não irão sem mim. Eu não vou sem o rei. E o rei nunca irá”. Sua filha, a atual rainha Elizabeth, com 18 anos no começo de 1945, foi treinada como motorista de caminhões e ambulâncias.

Alguns compartilham o sacrifício da maioria. Outros escolhem suas casas de campo.