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O Globo – 02.09.2016

Janaína Figueiredo

Centenas de milhares pedem referendo em Caracas; analistas temem endurecimento do regime

Nas maiores marchas desde 2014, centenas de milhares de venezuelanos exigiram nas ruas de Caracas que o presidente Maduro realize o referendo sobre o seu mandato. -BUENOS AIRES- Com sua popularidade abaixo de 30%, segundo apontaram recentes pesquisas, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, enfrentou ontem o que foi considerado por dirigentes da coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD) a maior marcha opositora desde que o chavismo chegou ao poder, em 1999, convocada para exigir a realização de um referendo revocatório do mandato do chefe de Estado. A chamada “Ocupação de Caracas” reuniu, de acordo com a MUD, cerca de um milhão de pessoas — para Maduro, não passaram de 30 mil — confirmando que a oposição recuperou sua capacidade de mobilização, dois anos e meio depois da onda de protestos que deixou pelo menos 43 mortos. As reações do presidente, somadas às prisões de dirigentes políticos e deportações de jornalistas estrangeiros ocorridas às vésperas da manifestação, provocaram preocupação entre analistas locais que temem, assim como a oposição, a radicalização da autoproclamada revolução bolivariana.

Ontem, as imagens da repressão voltaram a circular nas redes sociais. Segundo informou o jornal “El Nacional”, usuários do Twitter confirmaram a detenção de pelo menos 40 pessoas. Em várias ruas de Caracas, manifestantes foram reprimidos com gás lacrimogêneo. No final da tarde, quando havia terminando o protesto, ocorreram alguns confrontos entre policiais e supostos seguidores da MUD, que atiraram pedras e coquetéis molotov. A aliança opositora assegurou que se tratava de infiltrados.

— O governo queria que houvesse violência, e não houve — declarou o secretário-executivo da MUD, Jesús Torrealba.

Depois de ter recolhido quase 400 mil assinaturas a favor do referendo na primeira etapa do processo, a MUD precisa conseguir quatro milhões — 20% do eleitorado. O tempo está a favor do governo. Caso o referendo fique para 2017, uma derrota do chavismo significaria apenas a saída de Maduro e a transferência da Presidência para seu vice, Aristóbulo Istúriz, que ficaria até o fim do mandato, em 2019.

Torrealba afirmou que a MUD está oferecendo a Maduro “exatamente o que Dilma pediu e não conseguiu… sair daí pelos votos do povo, porque essa é a maneira que vamos chegar a Miraflores (palácio de governo)”. Mas o presidente, que seria derrotado, segundo as pesquisas, deixou claro que, longe de aceitar compromissos, vai redobrar a perseguição a membros da MUD. Maduro reiterou sua decisão de aprovar um decreto sobre o fim da imunidade parlamentar. Atualmente, a oposição tem ampla maioria na Assembleia Nacional (AN), enquanto o Tribunal Supremo de Justiça é controlado por governistas.

— Vou com a mão de ferro que (Hugo) Chávez me deu. Que ninguém se equivoque comigo — ameaçou o presidente, em ato realizado pelo governo para se contrapor à “Tomada de Caracas”.

Diante de uma multidão vestida de vermelho — a cor predominante na marcha opositora foi o branco — o chefe de Estado disse que “estamos perto de capturar estes criminosos fascistas, espero dar notícias em breve”. Maduro mencionou especificamente o presidente da AN, Henry Ramos Allup, e o acusou de estar por trás de um suposto plano para “provocar um banho de sangue em Caracas”.

— O governo aproveitará o momento para radicalizar e criminalizar os protestos. A marcha revitalizou a oposição e, para o governo, é mais fácil discutir sobre a repressão do que falar sobre um eventual referendo — afirmou ao GLOBO Luis Vicente León, diretor da Datanálisis.

Foram evidentes as manobras de setores aliados ao governo para tentar boicotar as manifestações de ontem. Cinco estações do metrô da capital permaneceram fechadas; foram bloqueadas importantes vias de acesso à cidade; os chamados “coletivos chavistas” (tropas de choque armadas) saíram às ruas com motos para dificultar a mobilização de carros e ônibus que tentavam entrar na capital. Além disso, segundo o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, mais de 30 grupos de manifestantes de outras regiões não conseguiram chegar à marcha. Também houve manifestações em várias cidades do mundo, como Washington, Genebra, Quito, Orlando e Lima, entre outras.

Na opinião de Rocío San Miguel, diretora da ONG Controle Cidadão e especialista em questões militares, “o que vem pela frente é mais repressão”. Rocío lembrou que nos meses de julho e agosto, 80 generais considerados fiéis ao chavismo foram designados em posições-chave dentro do esquema de segurança nacional. Um deles foi Néstor Reverol, nomeado ministro do Interior.

— Temos uma crise econômica inédita e um governo sem apoio popular. A saída do chavismo será criminalizar e reprimir. Nas últimas semanas, foram reforçadas militarmente as regiões consideradas estratégicas pelo presidente e seus aliados — explicou a diretora da ONG.