Jovens de Calais causam embaraço no Reino Unido Comentários desativados em Jovens de Calais causam embaraço no Reino Unido

O Globo – 24.10.2016

Rob Merrick (Independente)

As primeiras crianças refugiadas de Calais — grande acampamento com milhares de imigrantes no Norte da França — chegaram sábado à noite ao Reino Unido, com o governo parecendo cumprir a promessa feita ao Parlamento em maio. Mas, apesar de a maioria dos menores de idade com permissão para entrar no Reino Unido terem parentes no país, apenas alguns foram acomodados com membros da própria família. Em vez disso, boa parte deles foi levada para um orfanato, porque o governo não realizou a necessária verificação de antecedentes dos familiares. Além disso, alguns foram obrigados a ficar num polêmico centro de detenção de imigrantes chamado Cedars, perto do Aeroporto de Gatwick, levando a críticas crescentes contra o governo.

Cedars foi fechado em julho, após denúncias contra a política de prender crianças e familiares que aguardam expulsão do país. PEDIDO DE AJUDA URGENTE O desmantelamento do vasto acampamento na França começa hoje, e vai transferir os cerca de 6.500 habitantes, que serão conduzidos de ônibus para centros de acolhimento em toda a França, mas ONGs se mostram temerosas quanto ao destino de centenas de crianças.

A instituição de caridade Help Refugees disse que recebeu sinal verde para tomar medidas legais após o fracasso da secretária de Estado para Assuntos Internos britânica, Amber Rudd, na tentativa de implementar as ações para receber as crianças desacompanhadas mais vulneráveis.

Enquanto isso, e-mails vazados de funcionários do Ministério do Interior revelaram o pânico crescente de agentes públicos, que enviaram pedidos de “ajuda urgente” aos serviços de cuidados residenciais. Uma fonte disse ao “The Observer”:

— Politicamente, o Ministério do Interior não quer que isso aconteça, por isso não fez nada. Portanto, o fechamento do acampamento causa pânico, pois todo o trabalho que deveria ter sido feito ao longo de três a seis meses será feito em três a seis horas. Eles não podem abrigar todas as crianças porque nenhum dos controles foi realizado. SAÍDAS PREVISTAS PARA HOJE Andy Elvin, executivo-chefe da Tact, a maior instituição de promoção de caridade e adoção do Reino Unido, afirmou:

— É embaraçoso para uma nação desenvolvida não ter conseguido fazer isso mais profissionalmente. Nós não estamos sequer falando de um grande número de jovens.

Um plano foi elaborado há seis meses e aprovado há dois pela Associação do Governo Local (AGL), que se ofereceu para enviar assistentes sociais para Calais a fim de realizar avaliações. Um banco de dados abrangente de menores elegíveis no acampamento teria sido criado, bem antes de sua demolição. Mas a AGL disse que o Ministério do Interior não aceitou a oferta e que só começou a pedir ajuda de um especialista na última sextafeira — depois que alguns dos primeiros 60 refugiados já tinham chegado.

David Simmonds, presidente da AGL, disse ao “Sunday Telegraph” que a oferta foi feita em agosto:

— O Ministério do Interior não a levou adiante até o momento. A proposta não foi respondida com rapidez suficiente. Só sextafeira o ministério começou a procurar assistentes sociais com experiência no assunto. Mas nós oferecemos ajuda há três meses.

Uma fonte do Ministério do Interior disse ao jornal que o governo não considerou o apoio necessário em agosto.

A chegada dos primeiros refugiados provocou alegações de que alguns pareciam já ter passado da adolescência. Nas proximidades de um edifício do Ministério do Interior em Croydon, ao sul de Londres, telas foram usadas para manter os refugiados escondidos da população.

O desmonte da Selva de Calais — como é chamado o acampamento diante da costa da Inglaterra, com migrantes na maioria procedentes de Afeganistão, Sudão e Eritreia — foi anunciado em setembro pelo governo socialista do presidente François Hollande. As saídas estão previstas para começar hoje, mas ontem os representantes dos serviços de imigração já estavam no acampamento para explicar como será o processo de retirada, assim como convencer os que ainda hesitam em deixar o local. No fim de semana houve confrontos, e a polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo.

Durante três dias, 145 ônibus serão utilizados em sistema de rodízio para transportar os migrantes aos 300 centros de abrigo temporário em toda a França. O governo, que providenciou 7.500 vagas em alojamentos, espera concluir a operação em uma semana. Resta saber como será a recepção. Algumas localidades pequenas não concordaram com o plano de distribuição imposto pelo governo. Membros da oposição de direita citam o risco de criar várias “mini-Calais” em todo o país.

De acordo com o governo francês, esta semana 194 menores deixarão Calais com destino ao Reino Unido.