Maços sem cor e sem marca Comentários desativados em Maços sem cor e sem marca

O Globo – 29.08.2016

Marta Szpacenkopf

Para reduzir consumo, cresce a pressão para padronizar embalagens e limitar propaganda

Como parte da mobilização para o Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado hoje, ativistas e organizações antitabagistas estiveram no Congresso Nacional, na última quarta-feira, para defender a votação e aprovação de projetos de lei em favor da adoção do maço neutro de cigarro, além de de outras medidas que visam a diminuir o consumo do produto. A padronização do maço é uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), feita em maio deste ano, com o objetivo de criar mais uma barreira contra o tabaco, tornando seu consumo menos atraente.

O projeto de lei que prevê a adoção das embalagens padronizadas de cigarros defende a proibição de qualquer elemento gráfico decorativo ou que identifique marca, e a utilização de cor e fonte únicas para todos os fabricantes. Se aprovado, vai determinar ainda que a imagem usada para advertir sobre os riscos do fumo seja adotada também na parte da frente do maço — a foto atrás já vem impressa atualmente. A proposta está em tramitação na Câmara dos Deputados aguardando parecer do Relator na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços (CDEICS).

Outra proposta, apresentada pelo atual ministro das Relações Exteriores, José Serra, determina a padronização dos maços, proíbe aditivos que agreguem sabor ou aroma ao cigarro e veda a propaganda de produtos derivados do tabaco, inclusive a sua exposição nos pontos de venda.

Uma pesquisa realizada ano passado pela Fundação do Câncer, em parceria com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), mostrou que depois da proibição do uso de anúncios nos pontos de venda, em 2011, a indústria do tabaco passou a usar as embalagens e a posição do produto nos pontos de venda como forma de atingir crianças e adolescentes.

— Além de estarem posicionados perto de balas, chicletes e outros produtos que têm apelo infantil, os maços de cigarros também ficam frequentemente perto dos caixas, por onde todo o público é obrigado a passar. Muitas vezes os maços são organizados em mosaicos coloridos nos displays, simulando grandes painéis. Isso sem falar em paredes inteiras revestidas com material especial, repetindo as cores da embalagem do produto exposto, e a iluminação forte nas “vitrines” — conta Cristina Perez, psicóloga e consultora técnica da Fundação do Câncer que esteve à frente da pesquisa.

EXPERIMENTAÇÃO ENTRE OS MAIS JOVENS

Dados do Vigitel 2015, pesquisa realizada por telefone, o número de fumantes com mais de 18 anos no Brasil vem diminuindo. Em 2006, eram 15,7% da população. Em 2015, passou para 10,4%. Ainda assim, o Inca prevê para este ano 17.330 casos novos de câncer de traqueia, brônquios e pulmões entre homens e 10.890 entre mulheres. E uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que 18,5% dos jovens brasileiros já experimentaram cigarro, o que preocupa especialistas.

— Temos observado uma redução no número de fumantes no Brasil em função das medidas adotadas nos últimos anos, mas em relação aos jovens existe um número alto de experimentação. Por isso é importante ter medidas de prevenção que incluam a proibição total da publicidade e a padronização dos maços. Vários países adotaram e defendemos que o Brasil também adote o mais rápido possível, visando principalmente a prevenção entre crianças e adolescentes — defende Mônica Andreis, vice-diretora da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT).

O Ministério da Saúde informou, em nota, que iniciou a discussão interna no Governo Federal sobre a padronização de embalagens em 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, e que deverá indicar as ações federais sobre o tema. Porém, segundo o jornal “O Estado de São Paulo”, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, chegou a se posicionar de forma contrária ao tema, afirmando não haver nenhuma evidência que demonstre que a medida traz benefícios para a saúde pública.

Para a Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo), os projetos de lei que proíbem o uso de marcas em produtos derivados de tabaco são inconstitucionais porque violam princípios e direitos fundamentais consignados na Constituição Federal do Brasil. A Abifumo declarou ainda que as medidas não trariam os resultados pretendidos pelas autoridades e que a adoção das novas regras vai favorecer, em grande escala, o mercado ilegal e o contrabando vindo, principalmente, do Paraguai, gerando perdas para a cadeia produtiva do tabaco, que inclui fabricantes e varejistas, além da queda na arrecadação de tributos, aumento do desemprego e da criminalidade.

Além do uso das embalagens e dos pontos de venda, Mônica, acredita que ações de promoção em festas e eventos voltados para jovens também ajudam a trabalhar a simbologia do cigarro para atrair esse público.

— Ainda se trabalha muito a simbologia do produto para atrair o jovem. A pressão do grupo na adolescência também é um fator importante, trata-se de um período da vida propício para a experimentação não só do cigarro como de outras drogas — explica.

A atriz e bailarina Flávia Spinardi, de 29 anos, começou a fumar aos 15 anos, mesmo sob os protestos da mãe. Filha de pai fumante, ela se lembra de detestar o hábito quando criança.

— Nunca parei para pensar em como comecei a fumar. Na época todo mundo fumava, então acho que foi imitação e rebeldia. Minha mãe ficou revoltada, fez um auê, mas como eu sempre tirei boas notas, ela não tinha do que reclamar — conta.

Apesar de nunca ter tentado parar de fumar, Flávia sabe dos riscos e admite que planeja largar o cigarro eventualmente.

— Eu sei que é algo que não vou poder fazer para sempre. Eu tenho bastante fôlego como bailarina e atriz, acho que se eu parasse seria maior ainda, mas não sei quando vai ser isso.

Na contramão de Flávia, Marcelo Lacerda, empresário, começou a fumar mais velho, aos 31 anos, quando saía para beber com os amigos. Hoje, aos 33, a diversão se transformou num hábito.

— Há dois anos eu só fumava nos fins de semana, mas abri um negócio e passei a fumar todos os dias. Eu já estou percebendo os efeitos do cigarro. Quando fumo mais, misturando com bebida, no outro dia tenho até uma ressaca de cigarro. Virei fumante de verdade depois de velho, nem me lembro porque comecei, acho que foi falta de vergonha na cara — brinca.