Mercado de trabalho retrocede três anos Comentários desativados em Mercado de trabalho retrocede três anos

O Globo – 31.08.2016

Daiane Costa

O aprofundamento da recessão levou o mercado de trabalho no Brasil a regredir pelo menos três anos. Em julho, tanto o número de ocupados (90,5 milhões), quanto a renda real dos trabalhadores, estimada em R$ 1.985, voltaram a patamares do início de 2013. O retrocesso na formalização é ainda maior. No mês passado, 34,3 milhões de empregados estavam protegidos pelas leis trabalhistas. Esse é o menor contingente de trabalhadores com carteira assinada desde julho de 2012, quando esse grupo tinha 34,28 milhões de assalariados.

Com mais demissões e a renda em queda, a fila do desemprego bateu dois novos recordes: chegou a 11,8 milhões de pessoas e atingiu 11,6% da força de trabalho no trimestre encerrado em julho, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio Contínua (Pnad), iniciada em 2012 pelo IBGE. Com o resultado do mês passado, o Brasil tem o sétimo maior desemprego entre 51 países, segundo estudo da consultoria Austin Rating. E as previsões, a curto e médio prazo, são de piora.

Para economistas, a queda da atividade econômica ainda não teve seu impacto completo no mercado de trabalho.

— É um cenário bastante desfavorável porque não há um fato econômico para animar a economia do país. A renda das famílias cai, as empresas não investem e o setor público só corta gastos. Há uma desmobilização da renda e da demanda. E, saindo da crise, as empresas ainda demoram muito tempo para voltar a contratar. Seria preciso uma guinada no transatlântico, o que não se faz rapidamente — avalia Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese.

PARA ANALISTA, ALÍVIO SÓ EM 2018 Nas contas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV-Rio, a taxa de desemprego do terceiro trimestre já deve romper a barreira dos 12%, ficando em 12,2% e chegando a 12,4% nos últimos três meses do ano, o que resultaria em uma taxa média de 11,7% em 2016. No ano passado, a média da desocupação ficou em 8,5%, ante 6,8% em 2014. O pico do desemprego, segundo as projeções do Ibre/FGV, seria atingido no começo de 2017, quando deve atingir 12,8% da força de trabalho, estabilizando-se nesse patamar ao longo do ano. Recuperação só em 2018, explica Bruno Ottoni, pesquisador do Ibre:

— Essa situação é das piores já vistas na economia. Os índices de confiança descolaram do desempenho da atividade e o desemprego já atinge os salários mais altos. Entramos num ciclo vicioso que vai pressionar a taxa ainda mais e que traz um problema de longo prazo porque já afetou o chefe da família, o jovem que não pode se preparar porque precisa imediatamente de um emprego e, quanto mais tempo as pessoas demoram a se recolocar, mais dificuldades têm para conseguir um emprego.

Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, explica que a taxa não para de crescer porque a informalidade não tem mais dado conta de absorver os trabalhadores com carteira assinada que têm sido demitidos:

— Logo no início do processo recessivo, tínhamos um quadro de estabilidade na população ocupada porque a informalidade dava conta de absorver essas pessoas. Mas a informalidade já não absorve essa migração e você vê redução da população ocupada. Consequentemente, você tem destruição de postos de trabalho.

O contingente dos conta própria, atividade que vinha servindo de colchão para quem perdia o emprego com carteira, teve adição de 527 mil pessoas no trimestre encerrado em julho, em relação ao mesmo período do ano passado — praticamente a metade do aumento registrado no trimestre encerrado em abril, que serve como base de comparação.

CRISE NA INDÚSTRIA Lúcio, do Dieese, explica que a desaceleração desse grupo é reflexo direto da restrição de orçamento das família:

— Num primeiro momento, esse grupo cresceu, mas a renda em queda restringiu o consumo. Muita gente que perdeu renda ou mesmo o emprego está comprometida com financiamentos antigos, da casa, do carro. Não têm como continuar consumindo.

Para Azeredo, o mercado entrou num círculo vicioso, que se retroalimenta: cai a população ocupada, a renda, e consequentemente a massa de rendimento real (que é o total pago à população ocupada e o bolo que faz economia girar). E houve queda no número de empregados em setores importantes, como a indústria, que destruiu 1,4 milhão de postos de trabalho nos últimos 12 meses. Para o diretor técnico do Dieese, a situação desse setor é dramática.

— A crise na indústria é muito grave porque é anterior à recessão. A indústria já havia perdido competitividade e tinha dificuldades de concorrer de forma equilibrada com empresas no exterior. Quando a crise se deu no mercado interno, e a demanda caiu, ela ficou sem ter como sobreviver.