Válvula de escape na crise, autônomo volta para a fila de emprego Comentários desativados em Válvula de escape na crise, autônomo volta para a fila de emprego

Folha – 31.08.2016

Bruno Villas Boas

Uma parte dos trabalhadores que decidiram abrir o próprio negócio após perder o emprego —uma alternativa para a ausência de ofertas de vagas no mercado— está agora fechando as portas diante da crise econômica.

O número de trabalhadores autônomos (chamados também de conta própria) ficou menor em 342 mil no trimestre terminado em julho, ante os três meses anteriores.

Essa foi a maior redução de autônomos desde o período de fevereiro a abril de 2014, quando caiu em 445 mil. Naquela época, porém, as pessoas deixavam esse tipo de ocupação atraídos por ofertas de emprego formal.

São pessoas que abriram negócios próprios e sem funcionários, como donos de pequenas franquias, camelôs, pintores e prestadores de serviços. Eles representam 22% da força de trabalho do país.

Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, os novos negócios podem simplesmente “não ter vingado” por causa do momento de pouco dinamismo da economia.

“Tem o cara que perdeu o emprego, comprou um isopor e foi vender picolé na praia. Só que o frequentador da praia pode estar sem poder de compra. A venda do picolé cai e o cara vai para a fila de emprego”, disse.

O movimento atual preocupa porque o trabalho informal foi uma válvula de escape diante da pouca oferta de emprego formal —de 2014 para cá, mais de 2 milhões de pessoas se tornaram trabalhadores por conta própria.

A taxa de desemprego no país subiu de 11,2% (de fevereiro a abril) para 11,6% no trimestre de maio a julho, um recorde. Esse aumento reflete o crescimento de 3,8% no número de pessoas que procuraram emprego e não acharam (11,8 milhões no total).

Nessa mesma época de 2015, o número de profissionais autônomos crescia fortemente. De maio a julho de 2015, foram 201 mil pessoas a mais exercendo a função.

Esse crescimento era possível porque trabalhadores demitidos e que tinham carteira assinada receberam indenização, FGTS, seguro-desemprego. Um colchão que serviu para investir no negócio.

“Essa rede de proteção deu ao trabalhador uma certa possibilidade de abrir um negócio. Mas isso aconteceu por necessidade”, disse Azeredo.

Daniel Silva, economista do Modal Asset, afirma que, além das pessoas que perderam emprego, o trabalho autônomo foi exercido por outros familiares que decidiram apoiar a renda de casa.

“Uma dona de casa que passou a fazer brigadeiro para fora pode ter visto que aquela atividade não compensava. Ela então pode ter voltado para a inatividade, ou seja, não foi para a fila de emprego”, disse ele.

Segundo Marcus Rizzo, consultor da Rizzo Franchise, além da conjuntura econômica desfavorável, muitas pessoas decidiram aproveitar a demissão para realizar o sonho de ter um negócio próprio sem estar preparado.

“Isso aconteceu nas microfranquias, que têm um custo de investimento inicial baixo e atrai pessoas que receberam dinheiro de rescisão.”